sábado, 8 de fevereiro de 2020

A DOUTRINA DO PERDÃO SEGUNDO À BÍBLIA SAGRADA

por + J. Kennedy de Freitas, bispo anglicano continuante e doutor em teologia
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O relacionamento entre pessoas tem sido complicado desde a criação, como também o relacionamento entre homem e Deus, e isso sempre devido a deformação na forma de ver as coisas. Vejamos:
Eva induzindo Adão a erro.
Em Gn 3.6 - "... tomou do seu fruto, e comeu, e deu também ao seu marido ..."
Adão culpando a Eva.
Em Gn 3.12 - "... A mulher que me deste por companheira, ela me deu da árvore e comi."
Adão culpando a Deus.
Em Gn 3.12 - "... que tu me deste por companheira ..."
Caim matando Abel por inveja.
Em Gn 4.8 - "... se levantou Caim contra o seu irmão Abel, e o matou."
... e por aí vai meus irmãos. Ao longo de toda a história, as pessoas criando problemas para si mesmas, e sempre procurando eximir-se da culpa, ou transferindo-a a outros.
Para corrigir tal desarmonia, Deus inventou a redenção, que começa pelo reconhecimento do erro cometido e a formalização do pedido de perdão.
PERDÃO: Somente aos perdoadores
Na oração do Pai Nosso lemos:
Mateus 6:12 - "E perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores"; o que nos leva a entender que o perdão de Deus está condicionado a nossa capacidade de perdoar.
Logo, é necessário ser perdoador para se obter do Deus de Israel o perdão. Isto nos parece muito coerente e justo!
O PERDÃO AO REINCIDENTE
O reincidente deve ser outra vez perdoado? A resposta é: Sim! Toda vez que voltar a errar.  Enquanto vivermos, as portas do perdão devem estar sempre abertas.
Veja em Mateus 18:21 à 22 - "Então Pedro, aproximou-se dele (de Jesus), disse: Senhor, até quantas vezes pecará meu irmão contra mim, e eu lhe perdoarei? Até sete? Jesus lhe disse: Não te digo que até sete, mas, até setenta vezes sete".
Em Lucas 17:03 à 4 - "Olhai por vós mesmos. E, se teu irmão pecar contra ti, repreende-o, e se ele se arrepender, perdoa-lhe. E se pecar contra ti sete vezes no dia, e sete vezes no dia vier ter contigo, dizendo: Arrependo-me; perdoa-lhe".
Do exposto, aprendemos que para se obter o perdão tem que haver retratação com real arrependimento, não importando quantas vezes houve a reincidência.
O REAL SENTIMENTO DO PERDÃO
O perdão meus amados irmãos, não é um tipo de sentimento que ocorre somente quando há um desafeto. O perdão é um sentimento permanente, capaz de olhar as outras pessoas com olhos de compaixão, amistosos, tolerantes, compreensivos, ainda que essas pessoas sejam adversárias.
É um sentimento de nobreza. É algo muito elevado e sublime.
Disse o Senhor Jesus Cristo:
Mateus 5:44 à 45 - "Eu, porem, vos digo; Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei o bem aos que vos odeiam e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem. Para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus ..."
Então ser filho de Deus não é para todo o mundo. Há uma condição. Para que alguém afirme ser "filho de Deus", tem que praticar o exposto no versículo acima. Se assim não for, está enganado, e convém rever esse cristianismo.
Se não houver esse estado de sentimentos, não haverá o perdão. Não se estará perdoando e nem sendo perdoado. Pelo menos, é o que a Bíblia Sagrada diz.
Quanto ao ofendido, nos casos de desavenças, faz-se estritamente necessária a prática do sentimento do perdão, de forma que haja no coração esse sentimento permanentemente. Qualquer demonstração de perdão sem o sentimento de perdão não é nada. É melhor perdoar no exercício do sentimento do perdão, sem demonstrá-lo, do que fazer toda uma demonstração sem que haja no coração o real sentimento.
Qualquer gesto ou demonstração de perdão somente deverá ocorrer se o ofensor se retratar. Caso contrário, é desnecessário. Não é o ofendido que deve procurar o ofensor para perdoá-lo, mas o ofensor é quem deve tomar essa iniciativa. Ao ofendido cabe somente permanecer de coração aberto, no exercício do sentimento de perdão.
O PERDÃO REQUERIDO
Quanto ao ofensor, terá que formular o pedido de perdão para se redimir. Se isso não for feito, nunca estará perdoado, ainda que o ofendido esteja disposto a fazê-lo ou que em seu coração haja feito. O pedido de perdão será verdadeiro se houver real arrependimento, sem o que não terá nenhum valor, nem perante o ofendido, nem perante Deus.
Deve se evidenciar aqui os casos que o ofensor desconhece ter ofendido alguém. Por exemplo. Uma fala mal falada ou mal entendida que leva alguém a sentir-se ofendido. Nesse caso, o ofendido deverá fazer ciente o ofensor que aquela fala pode ofender as pessoas.
 Provavelmente haverá retratações, mas se tratar-se de banalidades, o ofendido deverá reavaliar a sua conversão.
SITUAÇÕES
Nos casos que as desavenças ocorreram à distância, ou seja, por telefone, carta etc..., a retratação também poderá ser feita à distância, pelos mesmos canais da desavença.
No entanto, nos casos das desavenças feitas pessoalmente, também a retratação deverá ser feita pessoalmente e o ofensor terá que procurar o ofendido para se retratar. Ainda que esteja morando em outro país. Tem que ser pessoalmente. Ninguém poderá representá-lo ou falar por ele.
Nos casos de impossibilidades por qualquer que seja o motivo, o ofensor nunca será perdoado, e o ofendido fica sem culpa.
Por isso a Palavra de Deus no diz: Lucas 12:58 - "Quando pois vais com o teu adversário (desafeto) ao magistrado (juízo eterno), procura livrar-se dele no caminho;(acertar as contas nesta vida) para que não suceda que te conduza ao juiz, e o juiz a meirinho (oficial de justiça), e o meirinho te encerre na prisão".
Irmãos, o texto bíblico refere-se ao caso do ofendido morrer primeiro, mas para um bom entendedor, o exemplo serve também para outras circunstâncias, como por exemplo, as pessoas perderem o contato e o paradeiro um do outro.
Por isso, se tivermos cometido quaisquer ofensas a alguém, é melhor corrermos em sua direção e nos retratar, enquanto estamos pertos. Pode ser que futuramente não tenhamos mais a oportunidade de fazê-lo, e vamos para a eternidade levando esse fardo.
Vamos destacar quatro situações de desavenças entre pessoas:
1.   Quando entre pessoas cristãs (ambos membros ativos de uma igreja, congregação, irmandade ou comunidade.)
2.   Quando um dos desafetos é cristão e outro não.
3.   Quando ambos não são cristãos.
4.   Quando entre pessoas da mesma família (casais, pais e filhos, avós etc., morando ou não no mesmo domicílio, cristãos ou não cristãos).
PRIMEIRO CASO  
As desavenças entre cristãos.
Para o primeiro caso, quando ambos os desafetos são cristãos, não há necessidade de comentários. É uma situação que nunca ocorrerá, pois se ambos são realmente cristãos, jamais serão desafetos. Em todo o caso, se isso vier ocorrer, convém que ambos ou aquele que se sentir ofendido, reavalie a sua conversão e o seu cristianismo.
Leiamos:
Romanos 12:10 - "Amai-vos cordialmente uns aos outros, com amor fraternal, preferindo-vos em honra uns aos outros".
Filipenses 2:3 - "Nada façais por contenda ou por vanglória, mas por humildade; cada um considere os outros superiores a si mesmo".
II Pedro 2:11 - “Havendo, pois, de perecer todas estas coisas (os céus e a terra), que pessoas vos convém ser em santo trato e piedade".
... e mais uma centena de textos.
SEGUNDO CASO
As Desavenças entre cristão e não cristãos.
Neste caso, quando um é cristão e outro não, convém que o cristão avalie se convém manter distância ou não. Se o seu desafeto for um familiar, convém esforçar-se para manter proximidade, mas se tratar-se de escarnecedor ou pessoa de difícil relacionamento, dentro do possível, convém manter distância, porém sem inimizade.
TERCEIRO CASO 
Os desafetos entre não cristãos.
Neste caso, quando ambos não são cristãos, só há um conselho a oferecer.
Convertam-se, perdoem-se, e sejam felizes.
Quarto Caso
Os Desafetos entre familiares.
Neste caso, quando as pessoas são da mesma família, convém que todos se esforcem ao máximo para manter a união da família. Desenlace, somente em último caso, e ainda assim, amistoso, sem inimizade.
A MÁGOA PROFUNDA
De tudo o que foi exposto meus irmãos, há ainda algo muito grave, e que deve merecer especial cuidado. A MÁGOA.
A mágoa é um sentimento que pode invadir o nosso coração, e é uma mistura de rancor, raiva, amargura, desgosto, pesar, ressentimento, ódio e tristeza e normalmente é fruto de uma ofensa ou uma decepção, e, enquanto não formos libertos, ela vai causando estragos em nossas vidas.
A mágoa é uma sensação de desconforto e descontentamento que pode durar por muito tempo, em alguns casos até para sempre, e por vezes é possível percebê-la no semblante, nas palavras e nos gestos de uma pessoa.
 Há muitos corações feridos, e quase destruídos pela mágoa. Há casos de ódio mortal contra o ofensor, mas na verdade é o ofendido que está morrendo, envenenado por um veneno chamado mágoa.
A mágoa nos adoece, nos leva a depressão, nos mata.
Ha quanto tempo você está se destruindo? A pessoa que te feriu talvez nem se lembre mais do que fez. E você aí! Morrendo por nada. Sua vida é preciosa, tanto para você como para Deus, que é o seu Criador.
Levante a cabeça, e sobretudo, perdoe. O ato de perdoar é sublime, é nobre, é divino. Retire de sua vida aquele velório da mágoa que você mesmo colocou em seu coração.
Por isso o Senhor Jesus nos estimula a perdoar e a amar os nossos ofensores. Se isto está difícil, convém exercitar os nossos sentimentos. Que tal começarmos agora, orando em favor de nossos ofensores? Ter misericórdia é compreender as misérias humanas.
Misérias no sentido de limitações, pecados, deslizes, erros etc. aos quais todos nós estamos sujeitos, e Deus diz:
(Mateus 5.7) "Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia"; e ainda
(Mateus 6.12) "E perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores"; condicionando assim o perdão e a misericórdia de Deus para conosco, segundo a nossa capacidade de exercer o perdão e a misericórdia para com as pessoas.
A Bíblia Sagrada nos aconselha o seguinte, em Hebreus 12.15 -
"Tendo cuidado de que ninguém se prive da graça de Deus, e de que nenhuma raiz de amargura, brotando, vos perturbe, e por ela muitos se contaminem".
CONCLUSÃO
Uma vez o perdão concebido, não significa que o ofendido deverá viver aos beijos e abraços com o ofensor, que pode tratar-se de pessoa de difícil relacionamento, e se assim for, provavelmente novas desavenças ocorrerão.
A Bíblia Sagrada, meus irmãos, nos diz em Romanos 12:18 - "Se for possível, quando estiver em vós, tende paz com todos os homens". 
Isto, se for possível. Porque nem sempre o é.
Amos 3: 3 - "Andarão dois juntos se não estiverem de acordo?"
O fato de pessoas estarem em desacordo não significa que devem ser inimigas. Apenas têm opiniões diferente, e cada qual viva a sua vida no seu espaço, e que se exercite a tolerância nos reencontros ocasionais.
Em II Tessalonicenses 3: 14 a 15 - "Mas, se alguém não obedecer à nossa palavra, por esta carta, notai o tal, e não vos mistureis com ele, para que se envergonhe. Todavia não o tenhais como inimigo, mas admoestai-o como irmão".
O mesmo ocorre quando alguém age com desonestidade. Por exemplo. Se um senhor colocar um servo para cuidar de seus bens e este servo agir com desonestidade. O servo vai se retratar. Vai ser perdoado. Mas nunca mais gozará da confiança do seu senhor. Estará perdoado, mas sem o emprego. Isto é justo, porque o servo demonstrou não ter as qualidades necessárias para o cargo que ocupava, logo, será descartado. Terá o perdão, mas nunca mais o emprego.
Acha isso questionável? Se eu tiver um tigre no meu quintal (tem gente que tem), e um dia esse tigre matar um de meus familiares, eu devo perdoá-lo?
Bem! Devo compreender que ele é um tigre, e aquilo faz parte de sua natureza. Não deverá ser punido por isto.
E devo mantê-lo no meu quintal?
Aqui cabe um "não" bem grande. Nunca mais estará no meu quintal. Será levado lá para a sua selva e ficará por lá. Ainda que sobre ele haja uma pele de ovelha, jamais o trarei para casa novamente. Ele é um tigre.
Na parábola do filho pródigo (esbanjador), temos uma situação entre família. Pai e filho. Daí o fato da recepção e da readmissão aos seus cargos.
Nesse episódio a parábola nos leva a entender que houve um desvio. O filho não era um devasso. Não era um vagabundo. Não era um aventureiro. Apenas inexperiente e sonhador. Então pediu a parte de sua herança a seu pai e partiu para uma aventura. Cometeu uma série de erros, dos quais se redimiu depois e voltou ao caminho de onde tinha se desviado. A probabilidade desse filho voltar a cometer erros semelhantes era praticamente nula porque não fazia parte de sua natureza. Foi um desvio.
Só para clarear!
Há gente boa, que comete desvios, e faz coisas ruins. Depois volta a sua origem.
Há gente ruim, que comete desvios, e faz coisas boas. Depois volta a sua origem.
Então, se você é o ofensor, corra enquanto pode e se retrate. Isto fará bem para a sua saúde física e espiritual. E se você foi o ofendido, exercite o seu coração no perdão. Uma boa forma de começar esses exercícios é orando pelos seus adversários. Ore de coração, para que Deus os perdoe, os abençoe e os livre dos males, e que, sobretudo lhes multiplique as oportunidades de conversão.
A Bíblia Sagrada no diz: I Timóteo.04: 07b - "...e exercita-te a ti mesmo em piedade".
Não ore para que Deus os converta. Deus nunca fará isso. Deus apenas os receberá se eles se converterem espontaneamente.
Pensemos nisto!
Amém. 
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por + J. Kennedy de Freitas, bispo anglicano continuante e doutor em teologia

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No entanto, lembre-se de juntar Cl 3:17 com 1 Co 10:31 :
devemos tudo fazer para a glória de Deus e em nome de Jesus! Deus o abençoe.