terça-feira, 18 de maio de 2021

AS SAGRADAS ESCRITURAS - Hermann Bavinck

Vejamos agora as claras afirmações que a Escritura faz sobre si mesma. 

Primeiro, Deus frequentemente envia Seus profetas não meramente para proclamar a revelação pela palavra de seus lábios, mas também para escrevê-la. Em Êxodo 17.14 Moisés recebe ordem do Senhor para escrever o registro da luta e da vitória contra Amaleque - uma batalha que foi de grande importância para Israel - como memorial no livro dos atos redentivos de Deus. Em Êxodo 24.3,4,7 e 34.27 Moisés é incumbido de escrever as leis e o estatutos de acordo com os quais Deus firmou Seu pacto com Israel. E quando Israel chegou ao fim de sua jornada pelo deserto e chegou novamente a Jericó nos campos de Moabe, nós somos expressamente informados de que Moisés relatou as jornadas dos filhos de Israel de acordo com o mandado do Senhor (Nm 33.2). Além disso, é dito especificamente sobre o cântico de Moisés registrado em Deuteronômio 32 que ele deveria ser escrito e ensinado aos filhos de Israel para que em dias de apostasia ele servisse de testemunha contra Israel (Dt 31.19,22). Ordens semelhantes para registrar a revelação recebida foram dadas aos profetas em seu tempo (Is 8.1; 30.8; Jr 25.13; 30.12; 36.2; Ez 24.2; Dn 12.4; Hc 2.2.). Embora tais ordens se refiram somente a uma pequena parte da Escritura, elas mostram que Deus proíbe que o homem acrescente ou diminua algo de suas palavras (Dt 4.2; 12.32; Pv 30.6) e tem dedicado um cuidado especial ao registro escrito de Sua revelação.

Em segundo lugar, Moisés e os profetas são perfeitamente conscientes do fato de que eles estão proclamando a mensagem de Deus não apenas de forma oral, mas também de forma escrita. Moisés é chamado para sua tarefa especial, isto é, é chamado para ser o líder do povo de Israel (Ex 3). Mas o Senhor também fala com ele face a face, como um homem fala ao seu amigo (Ex 33.11), e coloca-o a par de todos os Seus estatutos e ordenanças. Repetidas vezes, e como um preâmbulo para cada lei específica, são mencionadas as palavras: “E o Senhor disse”, “e o Senhor falou”, e outras semelhantes (Ex 6.1,10,13). Tanto nos livros de Moisés como em toda a Escritura, toda a entrega da lei é atribuída ao Senhor. Ele mostrou Sua palavra a Jacó, Seus estatutos e Seus juízos a Israel. Não fez assim a nenhuma outra nação, e para seu julgamento, outras nações não o conheceram (Sl 147.19,20; 103.7). Os profetas também são conscientes da fonte de sua profecia. Eles sabem que o Senhor os chamou (1 Sm 3; Is 6; Jr 1; Ez 1-3; Am 3.7,8; 7.15), e que receberam dele a Sua revelação (Is 5.9; 6.9; 22.14; 28.22; Jr 1.9; 3.6; 20.7-9; Ez 3.16,26,27; Am 3.8). O que Amós diz era a convicção de todos eles: “Certamente o Senhor não fará coisa alguma sem primeiro revelar o seu segredo aos seus servos, os profetas” (Am 3.7. Compare com Gn 18.17). Mas eles também sabiam que quando escreviam estavam proclamando a palavra do Senhor, e não a sua própria palavra. Assim como fez Moisés ao registrar as leis, assim também os profetas introduziam suas profecias com as fórmulas: “Assim diz o Senhor”, “a palavra do Senhor veio a mim”, ou “a visão”, “a palavra”, ou “a mensagem” do Senhor (Is 1.1; 2.1; 8.1; 13.1; Jr 1.2; 2.1; 4.11; Ez 1.1; 2.1; 3.1; Dn 7.1; Am 1.3,6,9).

Em terceiro lugar há o testemunho do Novo Testamento. Jesus e os apóstolos repetidamente faziam citações do Velho Testamento sob o nome de Moisés, Isaías, Davi e Daniel (Mt 8.4; 15.7; 22.43; 24.15). Com a mesma frequência eles faziam uso das seguintes frases introdutórias: “Está escrito” (Mt 4.4), ou “como diz a Escritura” (Jo 7.38), ou “assim diz o Espírito Santo” (Hb 3.7), e outras frases semelhantes. Por esse método de referência eles indicam claramente que a Escritura do Velho Testamento, apesar de ter sido composta de várias partes e escrita por vários autores, é um conjunto orgânico também em sua forma escrita, e seu autor é Deus. Nem Jesus nem Seus apóstolos mencionam a Escritura de forma indireta. Eles fazem citações diretas com as mesmas palavras usadas pelo escritor. Jesus declara que a Escritura não pode ser quebrada - isto é, não pode ser destituída de sua autoridade (Jo 10.35), e declara também que Ele pessoalmente não veio para anular a lei ou os profetas, mas para cumpri-los (Mt 5.17; Lc 6.27). O apóstolo Pedro escreve que a palavra da profecia é verdade e digna de aceitação, e é uma luz que brilha em lugar tenebroso. Isso acontece porque a Escritura contida no Velho Testamento não repousa sobre uma pregação pessoal e uma interpretação pessoal sobre o futuro, pois a profecia da Escritura não provém de particular elucidação; porque nunca jamais qualquer profecia  foi dada por vontade humana; entretanto, homens [santos] falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo (2 Pe 1.19-21; 1 Pe 1.10-12). No mesmo sentido Paulo testifica que as Sagradas Escrituras podem fazer-nos sábios para a salvação, se nós as lemos e pesquisamos pela fé que está em Cristo Jesus, pois elas nos são dadas pela inspiração de Deus, e por isso são úteis para o ensino, para a repreensão, para a correção na justiça (2 Tm 3.16).

Em quarto lugar, sobre as Escrituras do Novo Testamento, podemos dizer que embora Jesus não tenha deixado um documento escrito sobre Si mesmo, Ele escolheu, chamou e qualificou Seus apóstolos para sair pelo mundo, particularmente depois de Sua partida, para serem Suas testemunhas (Mt 10.1; Mc 3.13; Lc 6.13; 9.1; Jo 6.70). Ele os equipou para a realização dessa tarefa dando-lhes graças e poderes especiais (Mt 10.1,9; Mc 16.15ss.; At 2.43; 5.12; Rm 15.19; Hb 2.4), e mais especificamente dotou-os com o Espírito Santo, que traria todas as coisas que Jesus tinha feito à sua lembrança (Jo 14.26) e que os guiaria a toda a verdade, inclusive à verdade sobre coisas que ainda estavam por vir (Jo 15.26,27; Jo 16.13). Assim como Filho veio para glorificar o Pai, o Espírito Santo veio para glorificar o Filho e, para alcançar esse objetivo, o Espírito recebe do Filho tudo o que Ele fala e faz (Jo 16.14).

Os apóstolos deram seu testemunho de Cristo não apenas aos seus contemporâneos e aos seus compatriotas, que viviam em Jerusalém, Judéia e Samaria, mas também a todas as criaturas e até aos confins da terra (Mt 28.19; Mc 16.15; At 1.8). Nesse mandato de ir por todo o mundo estava contida a ordem de dar testemunho de Jesus também em forma escrita, apesar dos apóstolos não terem recebido sua missão nesses termos específicos. Mas se a promessa dada a Abraão também alcançaria toda a raça humana em Cristo, ela não poderia cumprir seu propósito a menos que fosse registrada por escrito e desta forma fosse preservada por todas as épocas e distribuída a todos os povos. Os apóstolos foram guiados em sua missão pelo Espírito Santo, que eles naturalmente proclamavam através de sua pena e através das epístolas pelas quais eles davam testemunho da plenitude da Graça e da verdade que existia em Cristo Jesus. Não apenas em sua pregação oral, mas também em seus escritos, eles demonstravam ter claramente percebido o propósito divino de que eles revelassem a verdade que Deus tinha revelado em Cristo e que através de Seu Espírito tinha tornado conhecida a eles.

Mateus escreve o livro da geração, isto é, da história de Jesus Cristo, o Filho de Davi (Mt 1.1). Marcos fala como o Evangelho começou com Jesus Cristo, o Filho de Deus, e teve seu ponto de origem nEle (Mc 1.1). Lucas quer, por meio de uma cuidadosa investigação e de um registro organizado, dar segurança a Teófilo a respeito das coisas que eram verdadeiramente cridas entre os santos com base nos testemunhos dos apóstolos (Lc 1.1-4). João escreve seu Evangelho para que nós creiamos que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhamos vida em Seu nome (Jo 20.31); e em sua primeira carta ele também declara o que tinha visto e ouvido, e o que os seus olhos tinham contemplado, e o que suas mãos tinha apalpado, com relação ao Verbo da Vida (1 Jo 1.1-3). Paulo está persuadido de que foi chamado não apenas para ser um apóstolo pelo próprio Cristo (Gl 1.1), e que recebeu seu Evangelho do próprio Cristo através de uma revelação (Gl 1.12; Ef 3.2; 1 Tm 1.12), mas também que pela palavra de seus lábios e de sua pena ele está proclamando a Palavra de Deus (1 Ts 2.13; 2 Ts 2.15; 3.14; 1 Co 2.4,10-13; 2 Co 2.17). Ele chega até mesmo a dizer que se alguém pregar outro Evangelho é maldito (Gl 1.8). E, como todos os apóstolos conectaram a vida eterna ou a morte eterna com a aceitação ou com a rejeição da mensagem que pregavam, o apóstolo João, no último capítulo do Apocalipse diz que todos aqueles que acrescentarem ou tirarem qualquer coisa desse livro receberão pesadas punições (Ap 22.18,19).

Ref.: Livro: Teologia Sistemática - Fundamentos Teológicos da Fé Cristã. Autor: Hermann Bavinck. Editora: SOCEP -  Sociedade Cristã Evangélica de Publicações Ltda. Págs. 104-108. 

(Contribuição de Alexandre Dias - Igreja Anglicana)

quinta-feira, 8 de abril de 2021

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quarta-feira, 7 de abril de 2021

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sábado, 13 de fevereiro de 2021

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sábado, 6 de fevereiro de 2021

O CORTE (tragédia) e a CORTE (farsa)


Pois é, minha boa gente, agora vemos, em pleno curso de uma pandamia coronavirus, o surgimento do que eu chamaria de "síndrome de Jezebel" -- a mulher de Herodes. 

Que nos diz a Bíblia, a tal  propósito?  Diz-nos que certa rainha, por não suportar o peso das imprecações que o profeta João Batista lhe dirigiu, a titulo de reprovação à sua conduta imoral, em vez de ela refutar com argumentos a saraivada de críticas, passou a exigir de Herodes, seu marido,  a morte do profeta acusador. 

Pois bem, não é que, in caso hodierno,   vê-se  Marx ter razão?  Sim, a história se repetiu -- não por tragédia, mas como farsa; digamos: -- uma espécie de versão tipiniquim do que ocorreu outrora. 

Contemplemos a cena rediviva em  expressão trágíco-bufa. Um eventual  presidente  Supremo Tribunal Federal, fiel a sua notória incompetência jurídica,  sentindo-se molestado pelas críticas que expressiva  parcela da população cidadã dirigia aos seus pares, decidiu cometer missão inconstitucional a um tope incomodado. 

Desse modo abriu investigação  (apenas  cabível à  Procuradoria Geral da República ) para apurar suspeitos crimes. De que tipo? De farta expressão de opinião crítica  ao STF em redes sociais e nas ruas do povo -- do qual emana, em reza constitucional,  "todo poder". 

Tais críticas, de fato verbalmente exasperadas, não excediam o consagrado direito opinião , cuja origem,  multiplicidade per capita e revestimento legal, não justificavam cortes de cabeças dos críticos daquela Corte, nem sua exposição na bandeja do satânico arbítrio. Isto é, em cenário contextual também  farsante, uma espécie de arremedo da conhecida lei dos medos e dos persas: mais olho por olho, dente por dente; ou, digamos: o corte da fonte do pensamento democrático -- feito por iníquo e galopante golpe de Corte. 

Em foco histórico, sim -- corte e Corte.  Eis uma metáfora cruel, que simboliza  o gultural (voz de povo) e o nasal (a escória fétida do arbítrio). De quebra, talvez a tragédia da História seja testemunhar  a presença de um Alexandre, o Grande,  e suportar  a presença de um Alexandre tão pequeno. "Basta, a quem baste/O bastante de lhe bastar".

Autor: Antonio Magno Figueira Netto, com autorizada divulgação.